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31 agosto 2007

DO QUE ME MÓI

O próprio acto de pensar a minha condição me cansa creio ter agora os dois pés no estádio da saturação e vou-me deixando lentamente enterrar nas areias movediças do meu pensamento. Simples respiração é esforço demasiado deixa-me extenuado sem forças para mais passo o dia sentado a olhar para os meus braços desmaiar e eu com eles e horas e horas de calor. Sinto um peso permanente sobre mim que me força os olhos para o chão me curva as costas me faz cerrar os dentes as mandíbulas sujeitas a uma pressão animalesca sedentas de mastigar sangue cortar ossos rasgar carne eu creio eu próprio me transformo uma vez por outra num animal que afortunadamente não chega a sair da minha cabeça.
Eu não suporto mais o peso da minha pele. Apetece-me despir o peso esmagador que exerço sobre mim deixar no chão para trás a minha pele como se fosse uma peça de roupa despir-me e deitar-me aliviado. Pesa-me a minha pele e pesam-me os dias pesa-me o entorpecimento do raciocínio pesa-me a carência e o espelho e o mar. Não tenho mais forças para aguentar um peso assim penso que se chegasse a conseguir deixar no chão para trás a minha pele como se fosse uma peça de roupa largava a correr para me rebolar e esconder nas ervas altas para que ninguém voltasse a encontrar-me e a obrigar-me a vestir a pele que parece me calhou em sorte. Não sou bicho habilitado a trocar de pele e creio que nem o quereria mas apreciava uma pele nova por assim dizer nova como quem diz fresca ou lavada e se eu não pudesse deixar no chão para trás a minha pele como se fosse uma peça de roupa e largar a correr pedia ao menos que me deixassem metê-la na máquina e esperar que a lavagem acabasse e depois vesti-la outra vez mas sem ser o mesmo era uma pele lavada e ainda húmida como a pele molhada de alguém que se banha polvilhada de pequenas gotas à superfície.
Se algum dia eu for preso preferia que me levassem mesmo para a cadeia a prisão domiciliária não poderia deixar de me saber a pouco e de me punir menos ainda é a força de hábitos e verões clandestinos a avassaladora ironia de férias ser descanso e féria ser dia da semana ou salário de trabalhadores que diferença faz um s na definição do tempo não deixa de ser cósmico digo cómico. Porque no entanto houve tempos em que me serviram os jogos de gato escondido com o rabo de fora eu mesmo desejei esta clandestinidade e genuinamente conformado para não ser nada porém eu já não sou eu que fui não quero dar mais esse passo para a desintegração falha-me a compreensão mordo a mordaça sinto urgência de indignação.

Escrita de outros dias/ Ridendo sed ne castigat mores
Por favor não me façam rir mais. Eu abano com a cabeça eu aprovo eu aplaudo eu faço o que vocês quiserem mas deixem-me parar de rir. Eu juro que beijo todos os santinhos que me puserem à frente eu lambuzo-os encho-os com o meu cuspo e fervor crente e eu ajoelho nas igrejinhas todas a que me conduzam aprendo umas rezas esmago-me debaixo os ícones da bondade deste superior bem universal eu faço umas oferendas e combinamos uns sacrifícios alguma porcaria há-de dar resultado que se veja nesta barriga cheia de riso.

21 agosto 2007

Eu não queria aborrecer não era minha intenção interromper a telenovela ou meter-me à frente da luz estou só para aqui sentado em frente à janela olhos presos ao vazio como hipnotizado quase que artificialmente baixo o ritmo cardíaco e hiberno. Não sei se aborreço ou não braços estendidos e areia a escorrer por entre os dedos areia coisa estranha a lembrar outros verões nem pestanejo enquanto a areia continua a cair esquecido de mim olhos abandonados mantenho-me imóvel. Sinto forte cá dentro como um ciclo no fim insisti para comigo chamar-lhe ciclo de sociabilidade encontro-o encerrado ou a ponto de não me preocupa um quadrado depois um círculo que nalgum ponto se desprende e da circunferência resta um simples risco aí está a sequência do encerramento do ciclo sem mais nem menos música. É com indiferença que assisto ao sentido do actual que ser em estrangeiro é bastante melhor será tudo uma questão de moda
pausa comercial por falar em moda há que amar as marcas marcas marcas marcas mergulhar de cabeça nas lojas lojas lojas lojas fazer delas nossa bandeira nosso emblema mais vale uma loja na mão do que duas a voar
pausa comercial moda as vítimas quem usa quem moda vácuo areia telenovela moda janela café sapo moda moda moda até que a voz me moda.

15 agosto 2007

CONSCIÊNCIA

Não invento nada nem poderia. Os dias são melhores que qualquer curso eu limito-me a fazer a digestão do quotidiano embaciando a janela com a minha respiração. É uma daquelas alturas em que a realidade imita a arte ou a arte imita a realidade ou simplesmente nada imita nada mas fornece pistas para se perceber uma coisa e a outra.

13 agosto 2007

DELÍRIO

Hoje não me sai da boca outra coisa que não insultos entre dentes de maneira compulsiva este chorrilho ameaça tornar-se obsessivo mas não posso calar o que vejo não posso suster no peito o que me arrebata já disse esta tensão nos músculos dos braços a sede de violência quase já sinto o sabor do sangue nos meus dentes arreganhados. Se eu pudesse gritar aqui, foda-se. Não desculpem a linguagem não é para desculpar e eu não me desculpo por ela não sei codificar em caracteres a minha agitação de outra forma e é só isso, foda-se e os músculos dos braços a pedir acção.
Hoje celebro o ódio a todas as putas. Dia negro ódio matança. Ouvem suas putas? Às vezes fantasio que vos mato a todas. Que esfrego os pés nas poças do vosso sangue que urro e salto sobre o que resta de vós tresloucado que me ajoelho e esmago os meus punhos até vos desfazer contra o chão e depois estender uma passadeira de alcatrão sobre tudo e fazer uma estrada por cima.
Não te inibas meu amigo. Ainda que não pareça eu não estou só na minha cabeça mas também não preciso de companhia hei-de já que aqui estou aproveitar o meu tempo e fazer alguma coisinha nem que seja fantasiar todo o tempo que mato todas as putas o tempo meu que hei-de aproveitar é tão negro e tão lento.
Tenho-me ainda todo dentro de sacos pronto a partir tudo não fora mais que um pesadelo a caminho de acabar e eu a caminho de destino desconhecido.

12 agosto 2007

RESUMO

Afinal de quem é a relutância de onde parte a falta de vontade qual é a razão para o silêncio se é que o silêncio precisa de uma razão de uma motivação de algo para que não nos sintamos depois surpreendidos. E no entanto eu fui apanhado de surpresa genuinamente sem estar à espera como um susto o momento a fugir aos dias que se sucedem uns aos outros sem levantar a cabeça para olhar o horizonte. Especialista em passar de grandes picos para as maiores profundezas mas para mim e sobretudo inesperado como música subitamente interrompida ainda que pessoas a dançar. Fui surpreendido julgo que tanto como os próprios músicos grevistas estáticos com os instrumentos na mão e sem saberem por que razão não tocam agora e fatalmente assim despromovidos nunca mais nada será igual nunca mais os dias serão os mesmos e sinceramente não vejo mal nenhum nisso. Estou sentado posto em calma habituado creio que no fundo gosto sempre assim foi das grandes ou nem tanto simplesmente das rupturas da falsa angústia da voz que murmura até nunca o drama de faz de conta das separações por causa desconhecida e falta de música para baile. Uns dias e cansei-me. Apesar de saber aquele era o meio sorriso de patifa os lábios imóveis a face num esgar silenciosa mas a dizer tudo há silêncios que gritam aos ouvidos mesmo sendo estes tempos tempos novos. Decidi devotei-me ao silêncio à minha introspecção a minha introspecção é a minha desintegração sem nada ao redor observo a efemeridade destas todas circunstanciais declarações de boas intenções murros na atmosfera de tensão acumulada nos músculos dos meus braços não controlo os meus braços movem-se frenéticos e eu atrás deles atrás das metáforas que me carcomem suave e ternamente até à resolução. E em resumo eu rio.