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18 fevereiro 2006

Há um ano que a minha vida começou a ser uma sucessão de dias mais felizes da minha vida

[e quem diria que seria esta cidade a ficar associada a esta data].

16 fevereiro 2006

ENVELOPE AMARELO

Os dias que passam os dias que nos passam. Os dias que se fizeram horas as horas daqui a nada instantes antes de mãos a tremer e plataformas de comboios ainda acredito e sempre que a dormir o tempo passa mais rápido e aquilo que desejo aquilo por que anseio chega mais rápido.

De manhã o frio menos frio o coração despertado mãos peito com cuidado quase um ritual seguramente algo maior guarda para mais logo o momento o local o espírito apropriado preparação para.

Já as pessoas almoçam em línguas outras tomo café e leio envelope leio livro leio janela e recanto mais perto do céu. Envelope amarelo como quem diz estou aqui para ser mais fácil para não haver confusões estou aqui e anseio abraço beijo ser. Envelope amarelo anunciando os dias passaram a horas não tarda acredita serão instantes hoje à mesma hora já alguém não custa nada. Amarelo torrado suspiro amarelo leio outra vez e outra aspiro o perfume amarelo o envelope mal aberto na ânsia sôfrega desajeitada.

E tudo o resto olhando para os não ponteiros ainda já só falta e amanhã a esta hora e quando depois e antes ainda.

UMA CRÓNICA COMO TANTAS OUTRAS

Ljubljana, há mais de cinco meses. Ljubljana é uma cidade absolutamente intrigante, fantástica e diversa. Aqui nunca há o risco de não ter o que fazer. Aqui não há momentos mortos, nunca ninguém se aborrece, há vida a fervilhar por toda a parte, todos os dias, todo o dia. Acho que ninguém alguma vez se pode fartar de Ljubljana, porque é uma cidade tão intensa que não pára de nos surpreender. A vida aqui é feita de emoções fortes.
Na generalidade, os eslovenos são imensamente simpáticos, acessíveis e faladores. Mostram uma curiosidade enorme pelos estrangeiros e pelos motivos que os levam a escolher o país deles. São muitíssimo prestáveis e não negam nunca ajuda, seja para o que for. É praticamente impossível ter azar com as pessoas.
Também o pessoal que organiza a recepção aos estudantes estrangeiros é fora-de-série, dando o que tem e o que não tem para que a estadia em Ljubljana seja inesquecível. As actividades que organizam conseguem sempre conciliar a vertente recreativa com a vertente lúdica. Nunca falhei uma actividade, e sempre dei o meu tempo por muito bem empregue.
Assim como com os eslovenos, o mesmo se passa com os estudantes Erasmus. Regra geral, toda a gente é impecável, há um espírito de grande entreajuda e pessoas muito interessantes para conhecer. Não é difícil fazer amigos entre gente assim.
Reflectindo, apercebo-me que nada aqui acontece de forma gratuita ou imotivada, há sempre nobres causas e princípios por detrás de cada acção, de cada gesto. Os fins espelham a elevação dos meios. Que sorte poder lidar com gente assim no meu dia-a-dia!...
Não duvido que noutros sítios isso possa acontecer, mas acho que seria impossível ouvir algum membro desta comunidade fantástica aqui de Ljubljana dizer que só queria ter sexo, porque para amor tinha a namorada. Aqui é impossível assistir à degradação do puro coleccionismo de medalhas de países. Aqui não há turistas sexuais. Aqui o carácter fala mais alto e toda a gente tem valores elevados que exerce com vigor.
Em suma, estou indizivelmente contente por ter escolhido Ljubljana para fazer Erasmus. Não me arrependo nem um bocadinho. Se fosse hoje tornava a fazer a mesma opção. E claro, tomem lá a frase clássica, façam Erasmus vão ver que não se arrependem.
A única verdade neste texto é que tudo o resto é mentira.

texto publicado no Jornal Universitário de Coimbra - A CABRA número 146 de 14 de Fevereiro [pdf]

08 fevereiro 2006

TITEREIRO

Tic - tac - tic - tac

Inspiro expiro olho o relógio revejo a nota consulto o escrito na agenda tudo a lembrar-me daqui a oito dias daqui a oito dias e

tic - tac - tic

já sem conseguir conter aquela alegria nervosa miudinha aquela vontade de voar em pedais invisíveis aquela tremura involuntária que cresce no peito a vontade de não sabe se rir se cantar era só poder agora controlar

fast forward

e logo depois

stop

o tempo ao serviço nunca mais

tac - tic - tac - tic - tac - tic - tac - tic - tac

ter estas velocidades todas ora ansiedade ora angústia ora pressa ora vontade de lutar

tic - tac

meter o pé

tic

levantar o braço

parar.

NÃO CANTO PORQUE SONHO

"Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
ao vê-los nus e suados."

escreve Eugénio de Andrade
canta Fausto

O SUBLIME

Era uma vez um rapaz que não achava de si mesmo suficiente para ser homem era simplesmente rapaz. Era uma vez um rapaz cheio de idealismos de ficções de cenários óptimos. Um dia esse rapaz fartou-se dos idealismos e das condições óptimas fartou-se e simplesmente decidiu deixar. Outro dia esse rapaz viu todos os seus idealismos ultrapassados superados tornados insignificantes um novo algo não tangível tornava-se e ele nele o sublime escolheu-o.
Os comboios que não só à noite movem-se como peças de xadrez. Nunca me sentirei sozinho enquanto houver longuíssimos comboios de mercadorias a passar no viaduto com um som incrível energia no ar uma vibração contagiante electrizante.

04 fevereiro 2006

Oh disse oh pensava que era mais fácil oh não é nada oh desculpa oh. Oh sempre oh não sei eu já nem sei é nada nunca sei dizer nada o que é que eu havia de dizer oh. Oh pontapé na cara não na cara não pontapé só pontapé adeus até mais oh pontapé não mas eu o que é que sei digo pontapé digo oh. Oh pensava que era muito mais fácil nunca pensei oh calma mas oh como calma. Oh texto oh ideias oh pensamentos oh isto tudo oh estou farto disto tudo oh desculpa oh isto é tudo o que não oh. Oh inglês oh português espanhol pouco esloveno e menos alemão oh porcaria oh parabéns oh bolas eu sei que oh não consigo. Oh penso e não escrevo oh faço e não penso oh escrevo e não faço oh fazer pensar escrever andar sentar ler descansar fugir pensar fugir desaparecer. Oh mãos vazias que é feito das garantias. Oh isso e oh aquilo. Oh frases sublinhadas em textos oh escrever em livros escrever livros escrever livros em livros oh mas o que é que eu estou a pensar escrever. Oh lamúrios oh vontade de dormir e só acordar logo dormir tanto que só acordar tão logo ou oh então acordar antes ainda oh segunda oportunidade oh segunda escolha oh pontapé janela poema oh sozinho cansaço música. Oh não mais não nunca anti-social oh associal sim. Oh voz toque cheiro. Oh lágrimas. Oh revolta.

Oh grito surdo no interior não se solta tudo é inércia e tanto cá dentro querendo sair os decibéis que encerro se não berro morro se morro dou o berro berrar morrer somente dizer muito alto morro berro morro.

01 fevereiro 2006

RUMO

O alívio de não ou a angústia de enfim nunca contente.

Andar como autómato sem escolher o caminho sem hesitar na dúvida não inventar seguir como autómato o caminho de todos os dias e as mesmas ruas as mesmas praças os mesmos passeios passadeiras semáforos lojas viadutos areia no chão todos os dias os mesmos cartazes e os mesmo escritos nas paredes os mesmos reclamos luminosos todos os dias e sempre o mesmo o mesmo o mesmo sempre mais do mesmo e penso porque não e não sei responder mas também sei porque não. Sigo como num carril é este o meu caminho não adianta aspirar a outros podia mas não este é o meu e não me posso desviar porque também de que valeria desviar-me e como tudo seria diferente se visto pelo olhos de com.

Ansiando por duas semanas sempre sonhar pensar idealizar.