DO QUE ME MÓI
O próprio acto de pensar a minha condição me cansa creio ter agora os dois pés no estádio da saturação e vou-me deixando lentamente enterrar nas areias movediças do meu pensamento. Simples respiração é esforço demasiado deixa-me extenuado sem forças para mais passo o dia sentado a olhar para os meus braços desmaiar e eu com eles e horas e horas de calor. Sinto um peso permanente sobre mim que me força os olhos para o chão me curva as costas me faz cerrar os dentes as mandíbulas sujeitas a uma pressão animalesca sedentas de mastigar sangue cortar ossos rasgar carne eu creio eu próprio me transformo uma vez por outra num animal que afortunadamente não chega a sair da minha cabeça.
Eu não suporto mais o peso da minha pele. Apetece-me despir o peso esmagador que exerço sobre mim deixar no chão para trás a minha pele como se fosse uma peça de roupa despir-me e deitar-me aliviado. Pesa-me a minha pele e pesam-me os dias pesa-me o entorpecimento do raciocínio pesa-me a carência e o espelho e o mar. Não tenho mais forças para aguentar um peso assim penso que se chegasse a conseguir deixar no chão para trás a minha pele como se fosse uma peça de roupa largava a correr para me rebolar e esconder nas ervas altas para que ninguém voltasse a encontrar-me e a obrigar-me a vestir a pele que parece me calhou em sorte. Não sou bicho habilitado a trocar de pele e creio que nem o quereria mas apreciava uma pele nova por assim dizer nova como quem diz fresca ou lavada e se eu não pudesse deixar no chão para trás a minha pele como se fosse uma peça de roupa e largar a correr pedia ao menos que me deixassem metê-la na máquina e esperar que a lavagem acabasse e depois vesti-la outra vez mas sem ser o mesmo era uma pele lavada e ainda húmida como a pele molhada de alguém que se banha polvilhada de pequenas gotas à superfície.
Se algum dia eu for preso preferia que me levassem mesmo para a cadeia a prisão domiciliária não poderia deixar de me saber a pouco e de me punir menos ainda é a força de hábitos e verões clandestinos a avassaladora ironia de férias ser descanso e féria ser dia da semana ou salário de trabalhadores que diferença faz um s na definição do tempo não deixa de ser cósmico digo cómico. Porque no entanto houve tempos em que me serviram os jogos de gato escondido com o rabo de fora eu mesmo desejei esta clandestinidade e genuinamente conformado para não ser nada porém eu já não sou eu que fui não quero dar mais esse passo para a desintegração falha-me a compreensão mordo a mordaça sinto urgência de indignação.
Escrita de outros dias/ Ridendo sed ne castigat mores
Por favor não me façam rir mais. Eu abano com a cabeça eu aprovo eu aplaudo eu faço o que vocês quiserem mas deixem-me parar de rir. Eu juro que beijo todos os santinhos que me puserem à frente eu lambuzo-os encho-os com o meu cuspo e fervor crente e eu ajoelho nas igrejinhas todas a que me conduzam aprendo umas rezas esmago-me debaixo os ícones da bondade deste superior bem universal eu faço umas oferendas e combinamos uns sacrifícios alguma porcaria há-de dar resultado que se veja nesta barriga cheia de riso.
Eu não suporto mais o peso da minha pele. Apetece-me despir o peso esmagador que exerço sobre mim deixar no chão para trás a minha pele como se fosse uma peça de roupa despir-me e deitar-me aliviado. Pesa-me a minha pele e pesam-me os dias pesa-me o entorpecimento do raciocínio pesa-me a carência e o espelho e o mar. Não tenho mais forças para aguentar um peso assim penso que se chegasse a conseguir deixar no chão para trás a minha pele como se fosse uma peça de roupa largava a correr para me rebolar e esconder nas ervas altas para que ninguém voltasse a encontrar-me e a obrigar-me a vestir a pele que parece me calhou em sorte. Não sou bicho habilitado a trocar de pele e creio que nem o quereria mas apreciava uma pele nova por assim dizer nova como quem diz fresca ou lavada e se eu não pudesse deixar no chão para trás a minha pele como se fosse uma peça de roupa e largar a correr pedia ao menos que me deixassem metê-la na máquina e esperar que a lavagem acabasse e depois vesti-la outra vez mas sem ser o mesmo era uma pele lavada e ainda húmida como a pele molhada de alguém que se banha polvilhada de pequenas gotas à superfície.
Se algum dia eu for preso preferia que me levassem mesmo para a cadeia a prisão domiciliária não poderia deixar de me saber a pouco e de me punir menos ainda é a força de hábitos e verões clandestinos a avassaladora ironia de férias ser descanso e féria ser dia da semana ou salário de trabalhadores que diferença faz um s na definição do tempo não deixa de ser cósmico digo cómico. Porque no entanto houve tempos em que me serviram os jogos de gato escondido com o rabo de fora eu mesmo desejei esta clandestinidade e genuinamente conformado para não ser nada porém eu já não sou eu que fui não quero dar mais esse passo para a desintegração falha-me a compreensão mordo a mordaça sinto urgência de indignação.
Escrita de outros dias/ Ridendo sed ne castigat mores
Por favor não me façam rir mais. Eu abano com a cabeça eu aprovo eu aplaudo eu faço o que vocês quiserem mas deixem-me parar de rir. Eu juro que beijo todos os santinhos que me puserem à frente eu lambuzo-os encho-os com o meu cuspo e fervor crente e eu ajoelho nas igrejinhas todas a que me conduzam aprendo umas rezas esmago-me debaixo os ícones da bondade deste superior bem universal eu faço umas oferendas e combinamos uns sacrifícios alguma porcaria há-de dar resultado que se veja nesta barriga cheia de riso.
2 Comentários:
Será que o estádio da saturação também é invadido no fim dos campeonatos?
O que é que estás a fazer acordado a estas horas, Nande?
Enviar um comentário
<< Voltar