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03 janeiro 2007

DESASSOSSEGO

“Então meti-me no meu canto, como uma aranha. Já viste o meu cubículo... sabes, Sónia, os tectos baixos e os quartos pequenos apertam a alma e a mente! Oh, como eu detestava esse cubículo! Mesmo assim, não queria sair de lá. Teimava em não sair. Durante dias inteiros não saía, não queria trabalhar nem comer, sempre deitado. Se a Nastássia me levava alguma coisa, comia; se não levava, passava o dia sem comer. E não pedia nada, por agastamento! À noite não tinha luz, ficava deitado no escuro, mas não queria ganhar algum dinheiro para comprar velas. Era preciso estudar, mas vendi os livros; na minha mesa há agora um dedo de pó em cima dos cadernos e apontamentos. Preferia deitar-me e pensar. Pensava, pensava... E tinha sempre sonhos, estranhos, variados, não vale a pena dizer que sonhos! E comecei também a imaginar que... Não, não é isso! Estou outra vez a contar mal! Estás a ver, eu interrogava-me sempre, nessa altura: por que sou tão parvo que não quero ser mais inteligente, só porque os outros são parvos e eu tenho a certeza disso? Depois descobri, Sónia, que se ficarmos à espera que os outros todos se tornem inteligentes, muito tempo se passará... Descobri ainda que isso nunca vai acontecer, que as pessoas nunca vão mudar por si e também ninguém as fará mudar, nem merece a pena o esforço! Sim, é isso! É uma lei... Uma lei, Sónia! É verdade!... E agora sei, Sónia, que quem for forte de espírito e de mente será soberano dos homens! Para eles, quem muito ousar terá razão! Quem menos escrúpulos tiver, será o legislador deles! Quem ousar mais do que os outros, terá ainda mais razão! Sempre assim foi e sempre assim será! Só um cego é que não vê!”

Fiódor Dostoiévski, “Crime e castigo”

1 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

tempo demais... :(

Entao tiago?? estamos a espera!

21/2/07 11:53  

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