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02 agosto 2006

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, este tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

["Aniversário", Álvaro de Campos]

4 Comentários:

Blogger ana disse...

adoro a escrita das várias "pessoas" do "fernando", mas confesso que o alvaro de campos me toca de uma maneira especial... boa escolha! (e deixava-te aqui os parabens para amanha, mas dizem que nao dá sorte!)

2/8/06 23:45  
Blogger ana disse...

Ops, enganei-me... afinal já podia dar os parabens!!! lol

2/8/06 23:47  
Blogger agarb disse...

acreditas que pensei que eras mesmo tu a escrever??

lol só no fim é que vi que era do pessoa. (tenho-te em boa conta)

aqui vai o feliz aniversário sem dinheiro no telemovel. tive sorte de poder vir a net!

abraço, grande amigo!!

3/8/06 03:11  
Blogger tiago pimentel disse...

Obrigado aos dois!

E Braga, quem me dera ter sido eu a escrever este belíssimo poema...

Beijinhos e abraços!

3/8/06 15:55  

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