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27 janeiro 2006

MINIMAL

Só sei correr de medo quando as pernas não me respondem e os pés ficam presos ao chão parecendo que pesam como chumbo. Para não fugir de coisa nenhuma. Já nem me lembro quando comecei a ter medo terá sido não não pode isso foi muito antes a verdade é que não sei quando foi mas lembro-me de quando prometi que não ia morrer. Devo ter sorrido na altura um sorriso nervoso o sorriso de quem promete que não vai morrer agora que penso nisso. Deve ter sido na mesma altura essa em que tive muito medo pela primeira vez e chorei os meus receios como que para expurgá-los para limpar-me de tudo o que imaginava e começar a construir(-me) de novo. Agora quando choro é de desespero quando corro é de medo quando canto às vezes é quando choro.

Tenho momentos alturas pensamentos em que me vejo muito dignamente a ser esmurrado
um murro atira-me ao chão e eu sem uma palavra levanto-me limpo o pó da roupa e sorrio
outro murro outra vez no chão a boca dormente e torno a levantar-me com toda a calma do mundo
outro murro e
outro ainda estou no chão levanto-me já a custo mas sempre com a maior dignidade limpo a roupa não quero estar neste estado sorrindo sempre
mais um murro já não sinto a cara mas continuo a levantar-me indiferente e a ser agredido sem esboçar a menor reacção com um riso aberto nos lábios quase irónico quase cínico a desdenhar o empenho do meu agressor em me deitar abaixo.

Não há uma velocidade única para os dias porque tudo acontece tão depressa ou tudo acontece tão devagar e geralmente acontecem demasiado depressa as coisas que deviam acontecer muitíssimo devagar e as coisas que deviam acontecer devagaríssimo como que voam de tão depressa que acontecem. Às vezes uma hora e meia não é suficiente outras vezes uma hora e meia é demasiado e eu não sei o que fazer com uma hora e meia sem planos. Nessas alturas sonhos que não atingíveis sentimentos que não experienciáveis se não emoções únicas e maravilhosas os momentos mágicos nos momentos mágicos.