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10 agosto 2005

CLANDESTINIDADE SEM VERÃO

imagem em baymed.org

O contributo da Enfermagem: uma escala de classificação da dor, por Wong-Baker.

A vida toda não seria suficiente para estar com quem anseio. Para aspirar o teu aroma, para saborear a tua boca. Nem só para dizer tudo o que preciso de manifestar (a comunicação unidireccional, ou de como os tubarões podem apartar os amantes). Toda a vida seria tão pouco tempo para acordar com os teus cabelos a fugirem-me das mãos e o teu sorriso a soltar-se no ar. Todas as manhãs seriam poucas para perceber. Todas as noites seriam insuficientes para ficar ao luar.

Mais que a cabeça, o que me dói é o coração à mera sugestão de ti. Os maxilares mordem e doem e a cabeça não quer parar de pensar. Não há conclusões, só o tempo a escoar-se. E tanto por dizer, tanto por fazer, tanto por amar. Sinto no ar a inércia do tempo que passa sem se poder deixar de dar por ele.

O curioso (e por demais previsível) modo como a minha vida ideal não se adapta à minha vida actual: todos os elementos estão deslocados. Hoje não sou capaz de ouvir a banda sonora da minha felicidade. Sou incapaz sequer de tentar reproduzir as nossas rotinas sem ti. Tudo ficou cristalizado no tempo, pedaço de memória à espera de que tudo volte a ser como era. Ideal.

[Tempos de clandestinidade sem Verão trazem recordações, umas mais distantes, outras menos. Como no último dia do secundário, em que eu estava no Meia-Bola (o café em frente à escola) e o Simões (um amigo) disse que me pagava uma caneca para festejar e eu recusei porque ia almoçar com os meus pais. Ou como no quinto e no sexto ano era sempre eu que ia ao quadro corrigir os testes de Português.]

Eu gostava tanto de saber escrever...